Orçamento de Estado 2014. Austeridade para quem?

Farto de politiquices, havia decidido há já longo tempo, não me dar ao trabalho de passar para o papel, neste caso para o papel virtual que é a Net, os meus mais profundos pensamentos e desânimos que se me afloram à mente sobre os mais vis acontecimentos da nossa sociedade. Porém chega sempre aquele momento que se não desabafamos rebentamos e desta vez o calafrio da estupidez deste povinho desencantado fez de mim brotar o ensejo de desabafar o que me vai na alma.

Já perdi a conta aos anos em que se fala de austeridade e sempre com a perspectiva de que “no ano que vem é que vai ser pior” mas tal como os demais portugueses estou anestesiado e já com um elevado índice de entorpecimento que já nem as mais e muito más notícias me fazem levantar os olhos ou virar a cabeça para ver as notícias que são derramadas nas televisões que vociferam bestialidades para dentro das nossas casas.

Hoje é tema de conversa o Orçamento de Estado, que todos parecem saber de que se trata e se discute com os mais elevados ares de douto conhecimento. Parece ser consensual que vai ser muito mau para os portugueses e as greves sucedem-se e parecem ser concordantes que com a sua actuação vão conseguir mudar alguma coisa… 

Não sei se notaram que eu estava a juntar-me à manada e a balir em uníssono com os desmandos dos pastores do rebanho. Mas voltando atrás à parte em que eu mencionava os portugueses e às greves e à austeridade que os mesmos vão passar no próximo ano apetece-me perguntar se os portugueses a que se referem os sindicatos são todos os portugueses ou só os portugueses que têm necessidade de fazer greve por causa da austeridade? Eu explico:

Como aquilo que nós os (outros!) portugueses presenciamos nas televisões trata-se de fazer evitar o aumento da austeridade dos funcionários públicos porque receiam, e bem, perder poder económico ou seja, como dizem os políticos, massa salarial. Como se trata realmente de meter a mão na massa, pasta, papel ou o que lhe queiram chamar dos funcionários públicos, os portugueses (eles!) têm que se indignar fazendo greves selvagens que a eles nada apoquenta mas que aos outros portugueses (nós!) fez uma tremenda diferença porque não podemos faltar ao trabalho e porque o parco ou mesmo, miserável ordenado que auferimos não se compadece do desconto de um dia.

Sem parecer xenófobo, esquerdista ou sequer pretender um apartheid social creio ser relevante perguntar aos portugueses (eles, os públicos!) quantos dos mais de 800.000 desempregados e dos cerca de 200.000 emigrantes incluem funcionários públicos. Quantos funcionários públicos estão em risco de perder o emprego nos próximos meses? Quantos funcionários públicos receberam de volta um dos subsídios que lhes havia sido retirado comparando com os (outros!) portugueses que trabalham no privado e lhes foi retirado também o mesmo subsídio e nunca lhes chegou a ser devolvido? Quantos funcionários públicos tiveram redução de até 10% dos salários em 2012 em comparação com os do privado que chegaram a ter reduções até cerca de 30%?

Feitas as contas Portugal tem dois tipos de cidadãos, os portugueses por um lado (608,7 mil funcionários públicos) e por outro lado somos nós que não temos voz nem representação e no entanto somos cerca de 5,5 milhões de trabalhadores no activo.

Desta forma 11% da população activa em Portugal tem o poder e a capacidade de consumir uma boa fatia do produto interno bruto e paralisar o país porque não querem trabalhar o mesmo número de horas dos demais portugueses (nós!) mais uma séria de choradinhos.

Em forma de desabafo e para amenizar a fúria de todos quantos conseguiram chegar ao epílogo deste longo verberar concluo dizendo que a culpa não é dos funcionários públicos que ao longo de décadas acumularam postos e se aposentaram com chorudas reformas mas sim dos outros (nós!) que não tiveram a sorte de serem bafejados ou apadrinhados por um emprego que nunca foi um trabalho de produção de riqueza. Alea jacta est.


Autor: Castro Dias

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